Criação do Mundo Segundo a Bíblia: Origem e Principais Interpretações
Introdução
Criação do Mundo segundo a Bíblia é um tema que envolve, ao mesmo tempo, fé, história antiga, teologia e
leitura de textos sagrados. Este artigo propõe uma visão ampla sobre a origem do cosmos, a estrutura da criação descrita em
Gênesis e as principais interpretações que foram desenvolvidas ao longo dos séculos por diferentes tradições
religiosas e correntes teológicas. Vamos considerar tanto o relato bíblico em si quanto as formas de leitura que surgiram
a partir dele — desde a leitura literal até abordagens que entendem os relatos como expressões poéticas, estruturais ou
teológicas, sem necessariamente excluir a possibilidade de diálogo com a ciência moderna.
Ao tratar de “origem” e de “como o mundo foi criado”, é essencial distinguir entre o texto sagrado e as
interpretações humanas. A Bíblia apresenta uma narrativa que, para muitos fiéis, tem como eixo a ideia de
um Deus único que cria, dá ordem e estabelece um propósito moral e cósmico. Para estudiosos e leitores modernos, a questão
envolve como essa narrativa se relaciona com a história natural, com a cosmologia e com a experiência humana ao longo do
tempo. Abaixo, percorremos o relato bíblico, exploramos as principais correntes interpretativas e discutimos o papel que
essa temática desempenha na ética, na teologia e na relação entre fé e ciência.
O relato bíblico da criação (Gênesis 1–2)
O livro de Gênesis, primeira parte da Torá e da Bíblia cristã, apresenta a criação do mundo como uma atuação
deliberada de Deus. O relato é geralmente dividido em duas perspectivas complementares: a visão da criação em seis dias e o
relato adicional de criação do homem e da mulher no Jardim do Éden (Gênesis 2). A seguir, sintetizamos os elementos centrais
dessas narrativas.
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Gênesis 1: a criação pelo verbo — a ordem criacional se desenrola pela palavra de Deus:
“E Deus criou…” repetidamente, até concluir com o descanso sabático no sétimo dia. A sequência destaca uma
progressão ordenada: luz versus trevas, firmamento entre as águas, terra e vegetação, luminares, criaturas marinhas e aves,
animais terrestres, e, por fim, o ser humano. A criação é apresentada como ordem, design e propósito. -
Os seis dias — a narrativa é organizada em seis etapas, cada uma marcada pela substituição de vazio
em ordem e pela bênção dada por Deus a cada estágio. Em quão ponto a idade da humanidade aparece como figura central
da criação, a humanidade é feita à imagem de Deus e recebe a incumbência de governar, cuidar e abençoar a criação.
A culminação é o descanso sabático, que celebra a conclusão, a santificação do tempo e a relação entre
Deus, o mundo e o benefício humano. -
Gênesis 2: uma visão adicional da origem humana — o segundo relato focaliza a criação do homem
(Adão) e da mulher (Eva) de uma forma que enfatiza a contextualização no Jardim do Éden, a formação da vida a partir do
pó e a companhia entre o homem e a mulher. Nesta passagem, particularizam-se detalhes como a presença de rios que
irrigam o jardim e a origem da tentação que culmina com a queda. -
Imagem de Deus — a criação do ser humano “à imagem de Deus” (geralmente interpretada como atribuições
espirituais, morais e racionais) sublinha a dignidade humana, a responsabilidade sobre a criação e a capacidade de
discernimento moral. Essa ideia tem consequências que vão além do texto: ética, responsabilidade ambiental, respeito à
vida e à dignidade de toda criatura. -
O conceito de “bom” — repetidamente, Deus declara a criação como boa, o que aponta para a
harmonia original entre Deus, o cosmos e a humanidade antes da queda. A expressão de bondade não apenas registra uma qualidade
estética, mas também aponta para o propósito de cada componente do cosmos dentro do plano divino.
Além do conteúdo, vale observar que o relato de Gênesis emprega linguagem que pode ser lida sob várias perspectivas —
literária, teológica e histórica. Em termos práticos, muitos leitores preferem insistir na ideia de que o
mundo foi criado por Deus, com uma ordem que estabelece uma relação entre a humanidade e o cosmos, sem que a narrativa
se proponha, de forma direta, a fornecer um compêndio científico moderno sobre a origem natural de tudo.
Em perspectiva de leitura, é comum encontrar nos estudos bíblicos a ideia de que a criação não funciona como um
manual técnico de física, química ou biologia, mas como uma afirmação de identidade, propósito e relação entre Criador
e criatura. Ainda assim, muitos intérpretes procuram entender o que o texto diz sobre tempo, causalidade, espaço e
origem, procurando estabelecer pontes com o conhecimento científico contemporâneo.
Interpretações históricas e teológicas principais
Ao longo da história da interpretação bíblica, surgiram distintas formas de entender os relatos de criação. A principal
tensão gira em torno de como acomodar a leitura literal de dias de criação com as descobertas da ciência moderna, sem
abandonar a fé em um Deus que criou o universo. Abaixo apresentamos algumas das abordagens mais influentes, com
descrições sucintas e os seus pressupostos.
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Literalismo bíblico (criação em seis dias literais) — essa leitura sustenta que os “dias”
mencionados em Gênesis 1 são dias de 24 horas, com a criação ocorrendo ao longo de seis dias consecutivos. Em
algumas tradições, essa abordagem é acompanhada pela visão de uma Terra relativamente jovem. Essa posição
enfatiza a confiabilidade literal do texto bíblico e tende a associar a idade da Terra a uma cronologia bíblica particular. -
Dia-idades (criação em eras) — os “dias” são interpretados como períodos de tempo extensos
(eras ou éons), permitindo compatibilizar o relato bíblico com evidências de formação gradual da Terra, da biosfera e
de eventos geológicos. Desta forma, a cronologia é revisada para reconhecer uma escala temporal maior, sem negar a
estrutura narrativa do Gênesis. -
Framework (estrutura) interpretation — os dias são entendidos como uma estrutura literária que
organiza a criação em dois conjuntos tríades: 1–3 estabelecem domínios (luz/trevas, firmamento, terra→vegetação),
e 4–6 estabelecem governantes desses domínios (luminares, criaturas que habitam os céus, animais terrestres e, por fim,
o ser humano). Essa leitura vê os dias como um arranjo temático que enfatiza função, ordem e propósito, não uma
cronologia científica literal. -
Teoria do hiato (gap theory) — defende que houve um hiato temporal entre Gênesis 1:1 e 1:2,
permitindo a existência de um mundo pré-adâmico. Essa leitura tenta conciliar uma “antiga terra” com o relato
subsequente de novo começo na criação de Adão e Eva. Há quem veja esse hiato como espaço para eventos históricos
não descritos no texto, incluindo julgamentos divinos anteriores ou uma longa história de anjos. -
Criação progressiva (progressive creation) — propõe que Deus criou diferentes seres
ao longo de extensos períodos, com intervenções divinas periódicas. Nesta visão, a história da criação não é
um relato de uma única sequência temporal contínua, mas uma narrativa que demonstra a atuação contínua de Deus na
formação do cosmos. -
Teísmo evolucionista (theistic evolution) — sustenta que a ação criadora de Deus pode
ser compatível com processos naturais como a evolução. A alma humana, para alguns teístas evolucionistas, é
criada diretamente por Deus ou surge quando o corpo biológico evolui até o ponto de receber uma dimensão espiritual.
Essa posição busca harmonizar fé cristã com descobertas científicas sobre a origem da vida, a formação da Terra e o
desenvolvimento da espécie humana. -
Criação ex nihilo — a ideia de que Deus criou o mundo ex nihilo, ou seja, “a partir do
nada”. É uma doutrina comum em várias tradições cristãs, articulando a soberania de Deus como origem de tudo o que
existe. Em algumas leituras, isso não impede a leitura de que as etapas da criação possam ser interpretadas
de modos diversos (literal, simbólico, etc.), desde que mantenham a convicção de que tudo veio de Deus. -
Interpretações judaicas antigas e medievais — dentro do judaísmo, há uma rica tradição de
leitura que dialoga com a Halachá, a Midrash e vários comentaristas bíblicos. As leituras variam entre enfatizar
a ordem criacional, a santidade do tempo (o Shabbat) e a relação entre pessoa humana e comunidade, sem reduzirem o
texto a uma cronologia científica estrita.
É importante notar que essas abordagens não são mutuamente exclusivas. Muitos teólogos contemporâneos adotam
posições híbridas, reconhecendo a validade de determinados elementos literários do Gênesis ao mesmo tempo em que
aceitam contribuições científicas sobre a história da Terra e da vida. O desafio é manter a integridade da fé
cristã ou judaica, sem abandonar o compromisso com a verdade, seja ela interpretativa, teológica ou empírica.
Perspectivas nas tradições religiosas e teológicas
A forma como a Criação é entendida varia consideravelmente entre tradições religiosas. Abaixo, apresentamos
sínteses de posições predominantes em contextos judaico-cristãos, com menções a visões católicas, protestantes e
ortodoxas.
Judaísmo
No âmbito judaico, Gênesis é lido dentro de uma tradição que liga a criação ao descanso sabático (Shabbat)
e à prática ética da vida diária. A leitura pode enfatizar:
- A dignidade inerente de cada criatura como expressão da criação divina.
- A responsabilidade humana de cuidar do mundo (tikkun olam — reparação do mundo).
- A leitura não literal das narrativas para extrair lições morais, éticas e cósmicas, sem negarem a historicidade de alguns elementos.
Cristianismo católico
A visão católica tradicional sustenta que:
- Deus é o agente único da criação e que tudo foi criado ex nihilo.
- A Bíblia contém verdades religiosas profundas que devem ser lidas à luz da fé, da Tradição e do Magistério.
- Existem leituras que aceitam uma interpretação não estritamente literal dos dias da criação, desde que não
comprometam a verdade de que Deus é o Criador e que o cosmos tem um propósito.
Cristianismo protestante
Entre as tradições protestantes, há uma diversidade considerável:
- Alguns defendem uma compreensão literalista (seis dias literais) em diálogo crítico com a ciência,
enquanto outros defendem formas de leitura inteligentemente figurada que reconhecem a contribuição da
ciência para a compreensão da origem natural. - O theistic evolution encontra respaldo entre teólogos que desejam manter a fé na criação divina ao
mesmo tempo em que reconhecem a evolução como um processo natural informado pela providência.
Tradição ortodoxa
Na Ortodoxia, a ênfase recai na participação de Deus na ordem criacional, na santidade do tempo e na
teologia litúrgica que enche a Criação de sentido sacramental. A interpretação costuma priorizar a relação entre criação,
salvação e êxodo, com uma leitura que valoriza a poeticidade e a mística contida no texto.
Interpretações: aspectos literários, teológicos e científicos
Além das diferentes escolas de interpretação, vale explorar três aspectos que ajudam a entender por que o debate sobre
criação permanece relevante:
- Literário — o texto é composto por símbolos, repetições, estruturas poéticas e narrativa que comunicam
verdades sobre Deus, o mundo e a relação com o humano. - Teológico — a criação revela o caráter de Deus (soberania, bondade, santidade, justiça) e define
a relação entre Criador e criatura, bem como a responsabilidade humana frente a esse relacionamento. - Histórico-Científico — a leitura pode dialogar com evidências históricas, geológicas e biológicas,
buscando compreender como as narrativas bíblicas podem coexistir com o conhecimento sobre a origem do universo e da vida.
A comunidade acadêmica e religiosa, ao longo dos séculos, tem lembrado que o propósito dos relatos bíblicos não é
oferecer uma monografia de ciência, mas convidar os leitores a contemplar o poder criador de Deus, a bondade da criação
e a responsabilidade humana diante de um mundo que ele sustenta.
Como leciona a Bíblia sobre a relação entre criador e criação
Uma leitura integrada enfatiza o seguinte:
- Deus como fonte de toda existência — Deus é o originador de tudo o que existe, sem depender de
nada fora dele. - Ordem, propósito e bondade — a criação opera sob uma sequência ordenada e é declarada boa, o que
envolve um propósito intrínseco para cada elemento do cosmos. - Relação entre homem e mundo — a humanidade recebe um mandato de cuidado, governo e responsabilidade
pela integridade da criação, com implicações éticas que persistem até hoje.
Em termos práticos, essa visão ajuda a fundamentar perspectivas éticas sobre ecologia, direitos
humanos e companheirismo entre espécies, já que a criação é entendida como uma responsabilidade
comum, e não apenas como um cenário estático.
O papel da interpretação na vida prática da fé
A forma como se lê a criação pode influenciar a prática religiosa, a liturgia, a ética ambiental e o modo como a
comunidade encara a ciência. Alguns impactos práticos incluem:
- Ética ambiental — uma visão de que tudo o que existe é criação de Deus reforça o cuidado
com o meio ambiente, a sustentabilidade e a responsabilidade intergeracional. - Diálogo entre fé e ciência — reconhecer que as perguntas sobre origem humana e cósmica envolvem
diferentes métodos de investigação pode conduzir a um diálogo respeitoso entre a teologia e as ciências naturais. - Educação religiosa — nas comunidades de fé, transmitir a ideia de que a Bíblia não é apenas um livro de
história antiga, mas um texto que fala hoje sobre significado, identidade e relação com o Criador.
Em síntese, a forma como se entende a criação influencia a maneira como se vive a fé no cotidiano: na oração, na
leitura bíblica, no ensino para crianças e jovens, e na atitude diante de grandes perguntas sobre a origem de tudo.
Conexões com textos do Novo Testamento e com a tradição bíblica
A compreensão bíblica da criação não fica restrita ao livro de Gênesis. Diversos textos do Novo Testamento
procuram harmonizar a fé cristã com a experiência do mundo criado, ampliando o horizonte interpretativo.
- João 1:1–3 — o logos que existia desde o princípio e que, pela qual tudo foi feito, reforça a ideia da
pré-existência de Deus e da ordenação criativa. - Colossenses 1:16 — Cristo como agente da criação, enfatizando a continuidade da criação na história
da salvação. - Hebreus 11:3 — a fé como percepção de que o mundo foi criado pela palavra de Deus, fortalecendo
a visão de Deus como fonte de toda suces‑são cósmica. - Salmos 104 — a esplêndida contemplação da natureza como expressão da sabedoria de Deus, reforçando a
ideia de que o cosmos é um lugar de habitação divina que clama pela reverência humana.
Essas referências ajudam a compreender que a criação, no pensamento bíblico, está entrelaçada com a história da
salvação e com a revelação de Deus em Cristo. A partir disso, muitas comunidades de fé buscam uma leitura que honre a
revelação contínua de Deus e mantenha diálogo com a ciência e a filosofia.
Conclusão: por que a criação é central para a fé e a razão
A criação bíblica é uma afirmação de que o cosmos não é fruto do acaso, mas resulta de uma
decisão amorosa de Deus. Esse ponto de partida sustenta uma visão de mundo que envolve valores, ética, propósito e
responsabilidade. Ao longo da história, comunidades de fé desenvolveram várias leituras, cada uma com seus próprios
recursos hermenêuticos, que buscam manter a fidelidade às Escrituras ao mesmo tempo em que dialogam com o conhecimento humano.
Em termos práticos, isso significa que:
- A fé não é inimiga da ciência, mas uma busca pela verdade que pode dialogar com descobertas científicas sobre a
origem do universo e da vida. - A leitura cuidadosa do Gênesis reconhece que os textos sagrados utilizam linguagem com funções
literárias e religiosas, sem negar que outras perspectivas possam coexistir com a fé. - O focal na dignidade humana e na responsabilidade pela criação orienta a ética pública, ambiental e social,
influenciando decisões sobre justiça, cuidado com o planeta e respeito pela vida em todas as suas formas.
Em última instância, a discussão sobre a criação não é apenas uma disputa de cronologias. Trata-se de
compreender quem é o Criador, qual é a fonte da vida, e como responder de forma responsável à revelação de Deus no
mundo. Através de uma leitura equilibrada — que reconheça tanto a riqueza poética do texto bíblico quanto as
contribuições da ciência — leitores podem aprofundar a fé, encontrar sentido para a existência humana e agir com
compaixão diante das grandes questões da humanidade.








